A privatização da Copasa parece, à primeira vista, uma reprise mineira da Sabesp. Não é. As duas tiveram data room, roadshow, bancos globais, investidor de referência e a promessa política de acelerar a universalização do saneamento. A diferença está no encanamento societário. São Paulo vendeu uma fatia relevante da Sabesp, mas amarrou melhor a transição. Minas Gerais coloca agora uma fatia maior da Copasa no mercado e deixou mais peso sobre a combinação entre preço, demanda e equilíbrio entre acionistas.
Na Sabesp, a Equatorial entrou como investidor de referência com 15% do capital. O Estado permaneceu como acionista relevante, a governança foi desenhada para preservar influência pública e a poison pill veio mais dura, com gatilho de 30% e prêmio de 200% em eventual OPA. Isso não eliminou críticas — a competição foi limitada —, mas criou uma ponte institucional entre venda de ações, tarifa e política pública.
A Copasa é outra engenharia. Minas pode vender até 50,03% da companhia, o investidor de referência pode chegar a 30%, a Perfin já aparece como bloco privado relevante e o Estado tende a ficar mais dependente da golden share. Há travas: OPA acima de 20%, nova obrigação acima de 45%, compromissos de universalização e modicidade tarifária. Ainda assim, o desenho parece menos uma privatização tutelada e mais uma disputa por equilíbrio entre os potenciais novos donos — Aegea, a favorita, ou até a própria Equatorial —, o mercado, a Perfin e o governo.
A diferença não está na transparência, mas no controle. A Sabesp foi vendida com mais cinto de segurança tarifário e societário. A Copasa chega ao mercado com airbags, mas em pista mais aberta. Quem comprar leva um ativo grande, regulado e politicamente sensível. O prêmio não será apenas ganhar Minas. Será provar que água privatizada não precisa virar dívida encanada até a conta do consumidor.
A modicidade tarifária é o teste final. Nos documentos da Copasa, ela aparece como compromisso de conduta — tarifa social, proteção da população vulnerável, equilíbrio econômico-financeiro e respeito aos contratos municipais —, mas não como um mecanismo financeiro explícito. Diferentemente da Sabesp, não há um fundo equivalente ao FAUSP, abastecido com parte dos recursos da privatização para apoiar a universalização e amortecer tarifas. Minas criou travas societárias. Ainda precisa provar que criou uma proteção tarifária com a mesma força para os consumidores mineiros.





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