By Brazil Stock Guide – A dívida virou o termômetro mais importante da Hapvida Participações e Investimentos S.A. (HAPV3). Depois de os spreads das debêntures mais líquidas da operadora de saúde chegarem a cerca de CDI +10% após o resultado do 4T25, os papéis voltaram a negociar perto de CDI +4,8% depois dos números do 1T26, segundo relatório do BTG Pactual. A queda do prêmio de risco não encerra a crise, mas mostra que o mercado deixou de tratar a companhia como uma história de deterioração imediata.
O alívio tem base financeira. O BTG afirma que nunca enxergou grande risco de default no curto prazo, dado o caixa de aproximadamente R$5,2 bilhões frente a uma dívida de curto prazo de cerca de R$1,3 bilhão. O problema era a direção dos indicadores: queima de caixa, queda de EBITDA, perda de beneficiários, maior utilização dos planos, judicialização elevada, bloqueios judiciais afetando o caixa e aumento das despesas corporativas.
Crédito respira
O 1T26 trouxe uma pausa nessa sequência negativa. A Hapvida reportou desaceleração nas perdas líquidas de beneficiários, melhora sequencial de 330 pontos-base na sinistralidade médica e desempenho bem melhor de fluxo de caixa livre depois da forte queima observada no segundo semestre de 2025, segundo o BTG. Foi o suficiente para reduzir o estresse na curva de crédito e devolver alguma confiança aos detentores de dívida.
A melhora já havia começado no início de abril, quando a companhia passou a avaliar potenciais desinvestimentos de suas operações no Sul. Para os credores, a combinação de caixa relevante, possibilidade de venda de ativos e menor pressão operacional no trimestre ajudou a mudar a discussão. A Hapvida voltou a ser analisada como uma companhia em reorganização.
Virada no comando
Essa reorganização vai além dos números. Em 30 de abril, os acionistas aprovaram um novo conselho de administração, agora com dez membros, ante nove anteriormente, e mandato até a assembleia de 2028. A eleição abriu espaço para três nomes apoiados por minoritários, depois de semanas de pressão da Squadra Investimentos, gestora que detém cerca de 7% da companhia e vinha criticando a governança, a alocação de capital e a execução da Hapvida.
A sucessão executiva também foi formalizada. Jorge Pinheiro deixou o cargo de CEO e passou a presidir o conselho de administração. Luccas Augusto Adib assumiu a presidência executiva, ficando responsável pela próxima fase do plano de transformação da companhia. Na prática, a mudança separa a gestão diária da liderança do conselho em um momento sensível para a maior operadora de planos de saúde do Brasil.
Minoritários à mesa
Os três nomes apoiados pelos minoritários eleitos para o conselho foram Tania Sztamfater Chocolat, ex-executiva do Canada Pension Plan Investment Board; Bruno Magalhães e Silva, com passagens por JGP e Squadra; e Eduardo Parente Menezes, ex-executivo da Yduqs. A Squadra também havia pedido voto múltiplo, mecanismo que permite a acionistas minoritários concentrar votos e ampliar influência em eleições de conselho.
O resultado não deu o controle do conselho aos investidores dissidentes. Sete dos dez conselheiros eleitos faziam parte da chapa originalmente proposta pela administração. Ainda assim, a presença dos indicados por minoritários força a Hapvida a acomodar um bloco mais ativo dentro de sua governança, elevando a pressão por disciplina de capital, execução operacional e prestação de contas.
Valor destruído
A crítica da Squadra foi dura porque veio acompanhada de destruição de valor. A gestora apontou que a Hapvida acumulava forte queda desde o IPO, em contraste com a valorização do Ibovespa no mesmo período, e também questionou a captura das sinergias prometidas na combinação com a Notre Dame Intermédica. Para os minoritários, o problema deixou de ser apenas conjuntural. Virou uma discussão sobre governança, incentivos e capacidade de execução.
Calma condicional
Para o BTG, a reformulação da governança, com nova equipe de gestão e conselho renovado, torna o ponto de partida da recuperação menos severo do que se temia. Ainda assim, o banco mantém visão neutra para a ação, por considerar que os riscos de execução continuam materialmente altos e que o mercado não deveria precificar uma inflexão operacional rápida neste momento.
A tempestade perdeu força. O mercado de crédito já reconheceu isso. Agora, a Hapvida precisa transformar a calmaria em geração de caixa — e a mudança de comando em recuperação de valor. Nesta sexta-feira, o papel caía forte na B3, cerca de 4% por volta das 12h, cotado a R$11,80. No ano, a queda é de 18%.







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