Nesta semana, ao historicizar os 20 anos da criação da ArcelorMittal, Lakshmi Mittal descreveu o fim de uma era. Em 2006, a combinação entre Mittal Steel e Arcelor capturava o espírito do tempo: a globalização. Para um setor fragmentado, a resposta era escala. Para ciclos regionais, diversificação. Para margens comprimidas, eficiência global.
A ArcelorMittal nasceu como a maior siderúrgica do mundo e como uma das expressões mais ambiciosas daquela lógica: produzir em vários continentes, vender para várias cadeias e capturar crescimento onde ele estivesse. A comunicação da fusão foi feita por BlackBerry, lembrou o empresário indiano. O iPhone só viria no ano seguinte.
Mas a tecnologia é detalhe. O ponto central do discurso, feito no Fórum Global de Dinâmica do Aço, em Nova York, foi outro: em 2006, quase não se falava de China produtora global de aço, descarbonização ou inteligência artificial. Hoje, esses três temas definem o setor.
A China é a primeira ruptura. Seu avanço exponencial e o fluxo de aço produzido abaixo de custos econômicos para o mercado mundial mudaram a indústria. O desafio europeu não é apenas produzir melhor. É competir contra uma estrutura global em que escala, subsídio, energia, financiamento e política industrial pesam tanto quanto produtividade.
A segunda ruptura é o carbono. A Europa criou o sistema climático mais ambicioso do mundo industrial, mas descobriu o custo de financiar a transição da indústria pesada. O aço não migra para baixo carbono como uma atualização de software. Precisa de eletricidade competitiva, hidrogênio verde em escala, captura de carbono, demanda por aço verde e tempo para substituir ativos de bilhões.
Ainda esta semana, ArcelorMittal, ThyssenKrupp Steel e voestalpine – que representam 60% da produção europeia – pediram uma reforma pragmática do mercado local de carbono, o ETS. O argumento é simples: a Europa está elevando o custo de produzir aço antes de ter criado as condições para que o aço verde seja economicamente viável.
As empresas não negam a transição climática. Alertam que a conta chegou antes dos instrumentos capazes de pagá-la sem destruir o legado atual. Esse é o coração do problema europeu. A União Europeia quer mais manufatura, mais autonomia estratégica, menos dependência da China e mais produtos de baixo carbono. Ao mesmo tempo, sua arquitetura climática impõe custos crescentes aos setores que sustentam a economia física: aço, cimento, alumínio, químicos, energia, transporte e máquinas.
O CBAM, mecanismo europeu de ajuste de carbono na fronteira, tenta corrigir parte dessa assimetria. Na prática, porém, ajuda a proteger o mercado interno, mas não resolve plenamente exportações nem a competição em produtos industriais mais avançados. A ironia é que a Europa redescobriu a política industrial justamente quando sua política climática começa a ameaçar a indústria. Não há autonomia estratégica sem energia competitiva. Não há aço verde sem cliente disposto a pagar por ele. E não há transição industrial se o caixa da velha indústria for consumido antes que a nova esteja pronta.
Esse é o dilema que a ArcelorMittal encarna aos 20 anos. A fusão de 2006 funcionou porque criou uma empresa mais forte para atravessar crises. Mas a próxima prova é diferente. Não se trata apenas de sobreviver ao ciclo. Trata-se de sobreviver a uma mudança de regime. Em outras palavras, a globalização cede espaço à proteção industrial.
O aço não perdeu seu valor estratégico. Ao contrário: quase tudo que a nova economia promete exige aço — data centers, energia eólica, solar, nuclear, hidrogênio, ferrovias, portos, veículos elétricos e defesa.
A Europa está mostrando que a transição energética virou disputa industrial. A China, com sua escala e seus custos, tornou-se o argumento para que a Europa coloque parte da transição na geladeira ou exija novas condições para segui-la. Quando o preço do carbono ameaça deslocar fábricas para fora da Europa, o discurso muda: a urgência climática passa a dividir espaço com segurança econômica, emprego e competitividade.
É essa a lição que o Brasil deveria absorver. O país não pode entrar na economia verde apenas como fornecedor de minério, energia limpa, crédito de carbono ou biomassa barata. Se fizer isso, trocará uma dependência por outra: deixará de vender apenas commodities tradicionais para vender insumos verdes definidos por regras, preços e certificações criadas fora.
A oportunidade brasileira está em outro lugar. Está em usar a vantagem ambiental para construir e fortalecer a nova indústria, não apenas para cumprir exigências externas. Energia competitiva, certificação de carbono, rastreabilidade, financiamento, defesa comercial inteligente e demanda doméstica para produtos de baixo carbono só fazem sentido se servirem a uma estratégia produtiva.





Deixe uma resposta