Por Rodrigo Uchoa, especial para o Brazil Stock Guide
A moda sempre teve um certo gosto por funerais — não apenas pelo rito social, mas pela oportunidade de decretar, com pompa e pressa, o “fim de uma era”. Desta vez, porém, a sensação é menos clichê e mais concreta. Em 19 de janeiro de 2026, morreu Valentino Garavani, aos 93 anos; Roma se despediu dele dias depois, como se estivesse enterrando também um certo ideal de elegância europeia. Poucos meses antes, em 4 de setembro de 2025, tinha partido Giorgio Armani, o padroeiro da sobriedade cara e da ideia de que o poder pode ser silencioso.
Atrás deles, uma fila recente de ausências que dá contorno ao zeitgeist: Roberto Cavalli (2024), Paco Rabanne (2023), Vivienne Westwood (2022), Issey Miyake (2022) e Antony Price (dezembro de 2025). Cada um, em seu nicho e com seu sotaque, ajudou a empurrar a moda do salão fechado para o grande teatro globa, transformando fantasia em escala e escala em um novo tipo de luxo: o luxo das massas.
Valentino: a Dolce Vita costurada — e depois licenciada

Valentino foi, antes de tudo, um diretor de fotografia. As mulheres que ele vestia não “entravam” num ambiente: elas chegavam, com enquadramento, luz e um senso quase cinematográfico do corpo como celebração. Seu repertório nasce na Itália da Dolce Vita, das socialites e das celebridades do cinema, quando o glamour ainda tinha algo de aristocrático e, justamente por isso, tão aspiracional.
Ele também foi um mestre da assinatura. Há cores que são tendência; e há cores que viram linguagem. O “Vermelho Valentino” cumpriu esse destino: um atalho visual para um tipo específico de desejo clássico, polido e inevitavelmente fotogênico.
Mas a verdadeira modernidade de Valentino aparece quando seu mundo, em vez de ficar preso ao ateliê, aprende a circular. A couture, por definição, é para poucos. O truque — e a virada histórica — foi entender que a aura poderia ser fracionada, distribuída e comprada em capítulos: fragrâncias, produtos de casa, lingerie, licenças. Não era só “vender mais”; era exportar um imaginário.

O ponto final financeiro (ou a vírgula longa) veio em 1998, quando Valentino e Giancarlo Giammetti venderam a empresa ao grupo italiano HdP por cerca de US$ 300 milhões. Na época, o valor parecia a prova de que o gosto — esse ativo tão intangível — podia, sim, ser convertido em cifra. Hoje, é difícil não ler a transação como uma espécie de profecia: o luxo passaria a ser, cada vez mais, uma arquitetura de marcas, licenças e narrativas.
Armani: a industrialização da elegância

Se Valentino filmava o glamour, Armani o industrializava. Seu grande golpe estético foi fazer da contenção um objeto de desejo. Ombros limpos, estrutura amaciada, cores sóbrias: a roupa não gritava “olhe para mim”, mas insinuava “eu não preciso gritar”. Foi uma revolução especialmente poderosa no fim do século 20, quando trabalho, capital e imagem corporativa se tornaram uma segunda pele.
Armani também entendeu algo que a moda, por vezes, finge esquecer: estética sem governança é fogo de artifício. O seu império virou um sistema, com múltiplas linhas, categorias, extensões, mas sem perder o sotaque. E quando o mundo passou a comprar menos ternos (ou a usá-los como figurino ocasional), Armani já tinha aberto outras portas de monetização: beleza, eyewear, hotelaria, design, o universo inteiro como “lifestyle”.

Os números contam essa história com a frieza de um balanço: em 2024, o grupo reportou receita de €2,3 bilhões, em um ano de desaceleração do luxo. A máquina de licenciamento foi parte essencial disso. A Reuters observou que os negócios de beleza e fragrâncias ligados ao nome Armani (na órbita da L’Oréal) são estimados em torno de €1,5 bilhão ao ano, enquanto o eyewear (via EssilorLuxottica) adicionaria cerca de €500 milhões.
E quanto vale Armani hoje? Depende menos de costura e mais de quem, no topo do capitalismo, quer comprar perenidade. Analistas citados pela Business of Fashion chegaram a estimar algo como até €7 bilhões. O que, traduzido, significa: a marca virou uma espécie de renda vitalícia da aspiração.
Os outros: excesso, futuro, rebeldia — e o corpo como manifesto
Roberto Cavalli foi o hedonista barulhento da Itália: estampas animais, sensualidade sem desculpas, a convicção de que “demais” pode ser uma estética coerente. Também ajudou a tornar o jeans um objeto de artifício (a famosa técnica do visual “sandblasted”).
Paco Rabanne era o poeta-metalúrgico da moda: metal, plástico, discos, correntes. Suas roupas pareciam protótipos do futuro, não apenas pelo material, mas pela ideia de que vestir é construir.
Issey Miyake operou em outra frequência: a da inovação gentil. Suas pregas eram tecnologia portátil, engenharia a serviço do movimento, uma forma de respeitar o corpo sem transformá-lo em sacrifício.
Vivienne Westwood, por sua vez, fez do corpo uma arena política. Se Valentino falava de identidade pela valorização do corpo, da beleza como afirmação, Westwood usava o corpo como protesto: punk como linguagem, roupa como cartaz, elegância como desobediência.
E há Antony Price, que parece um desvio, mas é uma conexão secreta. Price veio do circuito de artistas e roqueiros — Bowie, Roxy Music — desenhando não só roupas, mas personagens, capas de discos, mitologias. Ele e Westwood caminharam por uma estrada diferente da haute couture tradicional, mas chegaram a um ponto semelhante: redefiniram o modo de pensar a moda como imagem total, cultura, performance.
Um mundo moldado por eles — e um suspiro humano em tempos de IA
Juntos, esses estilistas ajudaram a construir o mundo que agora habitamos: um lugar em que marca é kit de identidade, perfume é porta de entrada para sonho, e um casaco pode sinalizar classe, tribo, desejo e política — às vezes tudo ao mesmo tempo. Eles também normalizaram a ideia de que moda não é só “coleção”, mas soft power: um mecanismo de imaginação social.
E é por isso que suas mortes soam como mais do que um rodapé de obituário. Em tempos de inteligência artificial, quando a criatividade corre o risco de ser confundida com geração automática de variações, eles lembram algo essencial: o que chamamos de estilo tem mãos, obsessões, temperamento, risco e, sobretudo, autoria. O “luxo de massas” que ajudaram a inventar espalhou seus mundos em porções acessíveis. Mas a centelha, aquela primeira faísca, continua sendo um suspiro raro da criatividade humana em estado puro.
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