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Adeus, sneaker? Calma

A onda do athleisure perde fôlego e abre espaço para loafers, camurça e saltos baixos: o trabalho quer parecer sério — sem parecer antigo.

Por Rodrigo Uchoa*, especial para Brazil Stock Guide

Pare um dia qualquer na avenida Faria Lima, em São Paulo, perto do Pátio Malzoni. Basta ficar parado cinco minutos para perceber que o tênis venceu. Passa um banqueiro de investimento de 28 anos com Veja impecavelmente branco, passa outro de 45 com o mesmo uniforme informal (e a mesma pressa), e de repente aparece o modelo do momento: um On, com aquela sola que parece ter sido desenhada por um engenheiro aeronáutico recém-saído do ITA.

Curiosamente, no caso da On, o storytelling na Faria Lima nem sempre começa pelo amortecimento, pelo drop ou por qualquer detalhe que um corredor realmente discutiria. Começa por um atalho mais local: “é o tênis do Lemann”. A marca suíça tem, de fato, grandes investidores brasileiros no seu cap table e, saber disso, é a senha para participar das conversas.

Para as mulheres, o Adidas Samba ainda reina como se fosse um cargo vitalício. Mas, como todo cargo vitalício na moda, já convive com cochichos de sucessão. Há quem olhe para o Samba como se ele tivesse virado um wallpaper: correto, mas já visto. E então surgem os “tech runners”, como Asics e New Balance, que fazem o pé parecer pronto para um trote, mesmo quando o máximo de cardio do dia será atravessar a portaria do prédio.

Um ou outro Onitsuka Tiger amarelo ainda aparece, pontuando a paisagem como uma lembrança de quando ele era “diferente”. Já o Golden Goose, com seu luxo ostensivamente surrado, perdeu o timing: em ambiente que adora parecer eficiente, pagar caro para parecer desleixado soa como piada privada.

Há uma linha do tempo que ajuda a explicar como chegamos aqui. Vinte anos atrás, os sapatênis começaram a desbravar esse território: eram o “meio do caminho” de uma geração que queria conforto sem abandonar a ideia de formalidade. Depois viraram cringe, como tudo que tenta ser meio termo por tempo demais. Vieram novas ondas, novas silhuetas, novas justificativas (“athleisure”, “smart casual”, “híbrido”). E a Faria Lima, que é muito eficiente em transformar ansiedade em tendência, normalizou o tênis como se ele fosse a única resposta possível a uma pergunta chamada “trabalho”.

Só que essa resposta parece estar perdendo o tom de inevitabilidade. Não é apenas impressão de pedestre. Há um argumento de mercado, com números significativos, sugerindo que o superciclo dos sneakers pode ter ficado para trás. Uma análise ampla do Bank of America (BofA), liderada por Thierry Cota, sustenta que o setor viveu um ciclo de alta de cerca de 20 anos, que levou os tênis de menos de um quarto das vendas globais de calçados para “pelo menos metade”, culminando na pandemia, quando trabalhar de casa transformou o conforto em política pública doméstica.

O ponto não é que as pessoas vão ressuscitar o oxford de verniz, o “cromo alemão”, como devem se lembrar os mais vividos. O próprio debate, aliás, é mais interessante quando evita esse falso contraste. O que os analistas sugerem é uma desaceleração estrutural: se a indústria de artigos esportivos cresceu, em média, algo como 9% ao ano desde 2007, a expansão futura poderia cair para 4% ou 5%. No mercado, a provocação teve efeitos concretos: a Adidas recebeu um raro “duplo rebaixamento” no relatório e as ações chegaram a cair até 7,6% em reação, antes de recuperar parte das perdas.

E, como sempre, há o coro dos céticos. Mesmo quem discorda do “fim do boom” lembra que tênis ainda são cerca de 60% das vendas de calçados nos EUA. Talvez o melhor jeito de ler esse momento seja menos apocalíptico e mais sociológico: o casual não acaba; ele se acomoda. E quando se acomoda, abre espaço para outras formas de parecer “apropriado”.

É aí que a conversa fica boa, porque “voltar ao sapato” não precisa significar voltar ao passado. No Brasil, o retorno tem sido seletivo, quase curatorial. Para os homens, o mocassim minimalista (e, com ele, o mocassim de camurça) virou um vencedor improvável do prestígio recente: limpo, menos “corporativo antigo”, muitas vezes em couro liso ou camurça, com sola não tão pesada. A revista ELLE Brasil, que raramente perde um termômetro de rua, apontou o mocassim minimalista como forte candidato a “sapato tendência” para os próximos anos.

A camurça voltou com força exatamente nesse território do “clássico + desejo”. Ela oferece uma elegância que parece menos esforçada — e, portanto, mais compatível com uma era que odeia parecer que tentou. Loafers e mocassins “atualizados” entram com blazer, com calça de lã fria, com jeans escuro, com linho; e aparecem em versões robustas (solado tratorado), minimalistas ou até envernizadas, para quem ainda gosta de um ponto e vírgula visual.

Para as mulheres, o movimento é parecido: sapatos que organizam o look sem pedir sacrifício. O slingback, esse salto “de escritório”, mas modernizado, virou curinga do polido. Afinal, ele deixa tudo mais adulto sem exigir salto alto. A ELLE listou o slingback como tendência forte, inclusive em versões mais “ladylike”, sem nostalgia demais. E o Mary Jane, aquele sapato de boneca, que já foi sinônimo de “fofo”, reaparece como peça de styling: tiras, sola mais firme, bico diferente, salto baixo. O “salto baixo elegante” tem moral porque resolve o dilema conforto × postura sem precisar transformar a sexta-feira em penitência.

Nesse cenário, cabe a pergunta que a Faria Lima sempre faz — primeiro com o guarda-roupa, depois com o Excel: “o que isso significa?” Não chega a ser a volta do “cromo alemão” no sentido caricatural, aquele sapato tão lustroso de que já falamos e com o qual daria para pentear o cabelo no reflexo.

Mas é interessante lembrar como, no imaginário urbano brasileiro, “cromo alemão” virou sinônimo de sapato bom, couro nobre, brilho de respeito, coisa de engraxate, de rito social, de distinção. A volta de agora é menos espelhada: é uma formalidade com filtro de conforto, uma tentativa de parecer arrumado sem parecer de outro século.

E talvez haja, aqui, uma boa notícia fora da ironia: se o loafer e seus parentes realmente ganharem espaço, pode ser um pequeno respiro para a indústria calçadista brasileira, que sabe fazer couro, forma e acabamento com uma competência que nem sempre vira conversa de esquina na Faria Lima. A menos, claro, que você seja um farialimer irremediavelmente viciado na Tod’s: nesse caso, o mocassim é menos tendência e mais fidelidade — quase uma relação estável, com sola de borracha e boleto em euro.

* The Skeptical Hedonist’s Handbook: https://www.instagram.com/theskepticalhedonist

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