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Exclusivo: Epstein lucrou com a crise da dívida brasileira no auge da disputa pelo impeachment de Dilma

Documentos mostram que bilionário encerrou em janeiro de 2016 uma posição em papéis da dívida, garantindo um lucro de US$ 787 mil com retorno de 160%.

Por André Vieira

Brazil Stock Guide – Mensagens que constam nos arquivos pessoais de Jeffrey Epstein indicam que ele obteve um ganho financeiro expressivo em janeiro de 2016 ao encerrar uma posição ligada à forte deterioração do risco soberano do Brasil, no auge da crise política que culminaria no impeachment da então presidente Dilma Rousseff.

Os documentos mostram que o financista bilionário — encontrado morto em sua cela nos Estados Unidos em agosto de 2019 e posteriormente exposto como pivô de um escândalo global envolvendo acusações de abuso sexual, irregularidades financeiras e conexões com autoridades públicas e outros bilionários — ganhou dinheiro exatamente no pico da crise do impeachment, cristalizando lucros no momento em que a confiança internacional no Brasil atingiu seu nível mais baixo no período.

Crise brasileira

Trocas de e-mails internos datadas de 15 de janeiro de 2016, classificadas como Confidential, mostram instruções para “unwind at 462 bp” (encerramento antecipado da posição financeira), em referência ao nível do CDS soberano brasileiro de cinco anos. Mensagens subsequentes confirmam que a ordem seria deixada com o trader nesse patamar, “good for the day” (ordem válida apenas para aquele dia de negociação), posicionando a saída virtualmente no topo do ciclo de estresse do risco soberano do país.

Os e-mails detalham as condições de mercado no momento da execução. O banco apresentou uma oferta de compra a 452 pontos-base e uma oferta de venda a 467 pontos-base para a proteção de CDS do Brasil, o que implicava um pagamento de unwind de US$ 1.278.512.

Na correspondência, a mensagem também recorda que cerca de US$ 491.941 haviam sido pagos para a entrada na operação com os títulos derivativos da dívida brasileira. Pelas contas total, Epstein teria obtido um lucro de US$ 786.571, equivalente a um retorno estimado de 160% sobre o capital inicialmente investido. Pela cotação atual aproximada de R$ 5,20 por dólar, o ganho corresponderia a cerca de R$ 4,1 milhões, em valores atualizados.

A operação foi intermediada pelo Deutsche Bank. Os e-mails indicam que o encerramento da posição foi sugerido pelo banco e executado com base na orientação do executivo Vahe Stepanian, que à época atuava como vice-presidente responsável pela cobertura de single family offices nos Estados Unidos, oferecendo acesso à plataforma global da instituição alemã em diferentes produtos, incluindo derivativos e o balanço do próprio banco. As mensagens trocadas naquela manhã confirmam os detalhes operacionais e o timing da execução.

Os registros não informam quando a posição foi originalmente montada. Ainda assim, a magnitude do ganho sugere que ela tenha sido estruturada meses antes, quando o CDS do Brasil negociava em níveis significativamente mais baixos ao longo de 2015, antes da perda do grau de investimento e da intensificação da instabilidade política.

No início de 2016, o Brasil enfrentava uma rara convergência de choques: recessão profunda, deterioração acelerada das contas públicas, rebaixamentos do rating soberano e uma crise política crescente no Congresso que avançava em direção ao afastamento presidencial. Esses fatores levaram a uma forte reprecificação do risco soberano e elevaram o custo de instrumentos de proteção de crédito atrelados ao país. A votação do impeachment ocorreria apenas mais tarde, em abril de 2016, após o pico de estresse capturado pelo CDS.

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Não há indicação nos e-mails de coordenação política, interação com agentes públicos ou uso de informação privilegiada. O lucro reflete a dinâmica padrão dos mercados financeiros, em que o aumento da percepção de risco eleva o valor da proteção via CDS.

Ainda assim, o momento chama atenção. Janeiro de 2016 marcou o ponto máximo do estresse soberano brasileiro, nível que não voltou a ser observado em episódios posteriores, incluindo a greve dos caminhoneiros em 2018 ou o choque global provocado pela pandemia de Covid-19.

A Brazil Stock Guide entrou em contato com Vahe Stepanian por e-mail para comentar a transação as mensagens citadas nesta reportagem, mas não obteve resposta até o momento.

One response to “Exclusivo: Epstein lucrou com a crise da dívida brasileira no auge da disputa pelo impeachment de Dilma”

  1. […] revelação foi publicada pelo site Brazil Stock Guide, que afirma ter analisado e-mails internos classificados […]

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