By Brazil Stock Guide – A Susep suspendeu nesta quarta-feira, 26 de agosto, toda a operação de seguro-viagem da Generali Brasil depois de identificar irregularidades em um modelo operado em parceria com a Hero MGA Serviços, no qual a remuneração da representante estava vinculada ao desempenho da carteira e a indicadores relacionados a sinistros pagos e pendentes.
A decisão, tomada por unanimidade pelo Conselho Diretor da autarquia, é cautelar e não atinge os demais negócios da Generali. A Susep afirmou, porém, que a estrutura encontrada poderia criar um conflito de interesses e um “incentivo econômico para a redução ou negativa de indenizações”. A fiscalização também encontrou demora na regulação de sinistros, indícios de recusas indevidas de cobertura e casos em que prestadores médico-hospitalares no exterior cobraram diretamente os segurados.
Em nota, a Hero informou que ela e a seguradora já estão em contato com a autarquia para compreender e resolver os desdobramentos da medida e solucionar todas as questões relativas às futuras emissões. A empresa informa ainda que segue suas operações normalmente e orienta todos os seus parceiros que façam o mesmo.
Grupo tradicional
A Generali é uma das maiores seguradoras em atividade no Brasil. A companhia, controlada pelo grupo italiano Assicurazioni Generali, completou 100 anos de atuação no país em 2025 e encerrou o ano com R$ 2,2 bilhões em prêmios emitidos e lucro líquido de R$ 137,8 milhões. O seguro-viagem, portanto, representa apenas uma parte de uma operação bem mais ampla.
O ponto central da decisão está na relação da seguradora com a Hero, uma insurtech que atua como MGA, ou Managing General Agent. Diferentemente de uma seguradora, uma MGA não mantém o risco final das apólices em seu balanço. Ela pode, no entanto, assumir funções relevantes na criação e administração dos produtos, distribuição e relacionamento com clientes. No caso dos seguros vendidos pela Hero, a Generali é a seguradora responsável pelos riscos.
Generali e Hero anunciaram a parceria para seguro-viagem em abril de 2024. Na ocasião, as empresas disseram que combinariam a estrutura e a experiência da seguradora com o modelo digital da insurtech. A Generali afirmou que a parceria permitiria oferecer um produto mais completo e acessível, enquanto a Hero dizia que pretendia elevar o padrão da experiência oferecida aos viajantes.
Documentos de seguros emitidos pela operação mostram que, em caso de resultado operacional positivo da carteira, 80% seriam destinados à Hero e 20% à Generali. A participação no resultado positivo de uma carteira não é, por si só, proibida. A questão levantada pela Susep é até onde uma estrutura desse tipo pode ir quando a remuneração do representante passa a ser afetada também pelo comportamento dos sinistros.
Segundo a Susep, na operação fiscalizada havia mecanismos ligados não apenas ao resultado geral, mas também aos sinistros pagos e pendentes. Para a autarquia, isso poderia fazer com que quem participa da regulação ou liquidação de uma indenização tivesse, simultaneamente, interesse econômico no tamanho da própria conta de sinistros. A fiscalização apontou ainda transferência a representantes de atribuições relacionadas à regulação, decisão sobre cobertura e liquidação.
O episódio ganha peso porque não é a primeira vez que a Hero aparece no centro de uma discussão desse tipo com o regulador. Antes da Generali, a empresa mantinha um contrato de representação com a Too Seguros. Nesse acordo, firmado em março de 2022, a Hero também recebia 80% do resultado operacional positivo da carteira e a seguradora ficava com 20%. Mas havia uma cláusula adicional: quando a sinistralidade ultrapassava determinado patamar, o prejuízo gerava créditos da Too contra a Hero, a serem compensados com remunerações futuras.
Foi justamente essa característica que chamou a atenção da fiscalização. Para a Susep, a regulamentação permite que um representante participe do resultado positivo de uma carteira, mas não que passe a assumir economicamente prejuízos decorrentes do excesso de sinistralidade. Na visão do regulador, isso aproximava demais o representante do risco que deveria permanecer com a companhia seguradora.
O caso terminou em punição à própria Hero. Em fevereiro de 2026, o Conselho de Recursos do Sistema Nacional de Seguros Privados rejeitou por unanimidade um recurso da companhia e manteve multa de R$ 45 mil por operar em desacordo com as regras aplicáveis aos representantes de seguros.
Ao anunciar a suspensão da Generali, a autarquia afirmou expressamente que já havia identificado irregularidades em “estrutura semelhante” envolvendo a Hero e outra seguradora em 2024 e que, mesmo depois daquele precedente, a empresa passou a atuar na Generali com mecanismos que, segundo o voto, aprofundaram o vínculo entre sua remuneração e o resultado dos sinistros.
A Hero cresceu rapidamente desde sua criação em 2022 e tornou o seguro-viagem seu principal negócio. A companhia se apresenta como uma plataforma tecnológica de seguros e afirma já ter protegido mais de 2 milhões de clientes, trabalhar com mais de 5 mil parceiros e emitir mais de R$ 15 milhões em apólices por mês.
A suspensão não significa uma condenação definitiva da Generali. Os processos administrativos continuarão tramitando, com direito de defesa da seguradora, e a própria Susep afirma que a cautelar poderá ser revista caso as circunstâncias que levaram à medida sejam eliminadas.











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