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Braskem Volta ao Lucro, mas Alavancagem Dispara para 16,8x

Lucro de R$1,4 bilhão no 1T26 vem do câmbio e do REIQ, não da operação. Consumo de R$5,1 bilhões em caixa mantêm a reestruturação no centro do radar

By Brazil Stock Guide – A Braskem (B3: BRKM3, BRKM5 e BRKM6; NYSE: BAK) voltou ao lucro no primeiro trimestre de 2026, mas o número esconde uma empresa correndo contra o relógio. O lucro líquido atribuível aos acionistas chegou a R$1,4 bilhão — revertendo um prejuízo de R$10,3 bilhões no trimestre anterior.

Expurgado o ganho cambial de R$2,9 bilhões gerado pela apreciação do real frente ao dólar, o quadro subjacente é materialmente diferente: a dívida líquida ajustada subiu 13% no trimestre para US$8,5 bilhões, a alavancagem atingiu 16,81 vezes o EBITDA recorrente dos últimos doze meses — ante 7,98 vezes um ano antes — e o consumo de caixa antes das atividades de financiamento chegou a R$5,1 bilhões, incluindo R$486 milhões referentes ao evento geológico em Alagoas.

A companhia e seus assessores confirmaram que avançam em tratativas com os assessores dos credores para formulação de um plano abrangente de reestruturação de capital, sem prazo divulgado.

O trimestre confirmou o que o mercado já antecipava: a recuperação operacional da Braskem é real, mas insuficiente. O EBITDA recorrente consolidado atingiu US$192 milhões, alta de 76% sobre o quarto trimestre, sustentado pela expansão dos spreads de resinas no Brasil, pela recuperação da demanda de polipropileno na América do Norte e na Europa, e por um impacto positivo de US$32 milhões do REIQ — ajuda federal de PIS/Cofins sobre matérias-primas petroquímicas ampliado pela Lei Complementar nº 228, em março, de 0,73% para 5,8%. A receita líquida caiu 12% na comparação anual para US$2,95 bilhões.

Brasil Sustenta o Resultado

O segmento doméstico entregou o resultado mais relevante do trimestre. Brasil/América do Sul registrou EBITDA recorrente de US$241 milhões, alta de 69% sequencial, sustentado por três vetores simultâneos: elevação de 16% nos spreads internacionais médios de resinas; impacto positivo do REIQ no custo do produto vendido; e redução de despesas recorrentes que haviam pressionado o quarto trimestre.

A taxa de utilização de eteno subiu para 69%, ante 59% no período anterior, e o volume de vendas de resinas no mercado doméstico cresceu 5% na comparação sequencial para 782 mil toneladas, puxado pelo polietileno nos segmentos de alimentos, bebidas e higiene.

A margem EBITDA do segmento expandiu para 11%, ante 7% no quarto trimestre. A ressalva é relevante: na comparação anual, o EBITDA recorrente do segmento em dólares ainda está 21% abaixo do primeiro trimestre de 2025, refletindo a fraqueza estrutural do ciclo petroquímico global. A utilização de eteno verde recuou para 64%, ante 87% um ano antes, e os volumes de PE verde foram cortados pela metade sequencialmente, para 26 mil toneladas.

Nos Estados Unidos e na Europa, o negócio de polipropileno voltou ao azul após um quarto trimestre negativo. O EBITDA recorrente foi de US$21 milhões, ante prejuízo de US$32 milhões no período anterior, sustentado por maior volume de vendas de PP e melhora de 6% nos spreads médios. A taxa de utilização subiu para 79%. A recuperação teve componente antecipatório: compradores na América do Norte e na Europa aceleraram pedidos diante da incerteza geopolítica, elevando a demanda de PP em 5% e 8%, respectivamente. A margem EBITDA, de 3%, permanece estreita.

México Desmorona

A Braskem Idesa, joint venture mexicana, deteriorou de forma acentuada. A taxa de utilização despencou para 55%, ante 85% no quarto trimestre, com queda no fornecimento de etano pela Pemex e redução deliberada das importações para preservar liquidez. O volume de vendas de PE recuou 37% sequencialmente para 140 mil toneladas.

O EBITDA recorrente ficou negativo em US$15 milhões. O terminal de importação de etano concluído em 2025 — com capacidade de 80 mil barris por dia, equivalente a 120% da necessidade da Braskem Idesa em plena capacidade — ainda não eliminou a fragilidade operacional do ativo.

Desde fevereiro de 2026, encerrou-se o compromisso contratual da Pemex de fornecimento de 30 mil barris diários, substituído por um direito de preferência até 2045. Com ratings D pela S&P e RD pela Fitch desde novembro de 2025, após o não pagamento de juros dos bonds com vencimento em 2029 e 2032, a Braskem Idesa avalia opções que podem incluir processo de Chapter 11 nos Estados Unidos, com potenciais impactos sobre a participação acionária da Braskem na joint venture.

O Relógio da Reestruturação

O benefício do REIQ é temporário — vigência até dezembro de 2026, com redução de 10% a partir de abril e teto setorial de R$2 bilhões. O ganho cambial que inflou o lucro líquido se reverte caso o real deprecie. O consumo recorrente de caixa de R$4,6 bilhões — concentrado nos pagamentos semestrais de juros dos bonds internacionais no primeiro e terceiro trimestres — é estrutural.

O estoque de dívida corporativa soma US$9,4 bilhões em valor bruto, com 91% em moeda estrangeira, custo médio de variação cambial mais 6,34% ao ano e prazo médio de 7,4 anos. Os bonds com vencimento em 2028 negociam em torno de 53 centavos por dólar, precificando risco relevante de reestruturação. O índice de cobertura de juros — EBITDA recorrente dos últimos doze meses sobre juros pagos — está em 0,87 vez, abaixo do limiar de serviço sustentável da dívida. O lucro voltou. A crise, não acabou.


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