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Valor Exportado das terras raras

O Brasil tem uma das poucas minas de terras raras fora da China. Mas pode ficar sem o valor gerado por seu potencial.

A Serra Verde, adquirida pela USA Rare Earth por US$ 2,8 bilhões, é um ativo raro no sentido literal. Localizada em Goiás, a mina produz terras raras — um grupo de minerais usados na fabricação de ímãs permanentes, essenciais para motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, eletrônicos e até sistemas de defesa. Sem eles, a transição energética simplesmente não acontece.

Hoje, a China domina não só a produção, mas principalmente o processamento desses minerais. E é justamente aí que está o ponto central: terras raras não são apenas um negócio de mineração, mas um elo crítico de uma cadeia industrial. Extrair o minério é apenas o primeiro passo — e o menos rentável. O valor está nas etapas seguintes: separação química, refino, transformação em metais e, por fim, fabricação de ímãs. É nesse trecho que as margens aumentam, a tecnologia entra e o poder econômico se concentra.

A aquisição pela USA Rare Earth deixa isso evidente. A empresa americana não quer apenas a mina. Quer garantir matéria-prima para alimentar uma cadeia integrada que está sendo construída nos Estados Unidos — com apoio direto do governo americano, uma estratégia que ganhou força no governo de Donald Trump.

O desenho é simples: o Brasil fornece o minério. O resto do mundo faz o produto. Isso não é novo — e mostra o quanto o Brasil perde em oportunidades. Exporta minério de ferro e importa aço. Exporta soja e importa alimentos processados. Exporta petróleo e importa diesel. Em todos os casos, fica com a parte menos sofisticada da cadeia. Em terras raras, o risco é repetir o padrão — em um setor ainda mais estratégico.

A engrenagem por trás desse movimento ajuda a explicar por quê. A USA Rare Earth não atua isoladamente. Está inserida em um ecossistema que combina capital financeiro e estratégia estatal, com conexões ao secretário do Comércio Howard Lutnick, aliado de Trump e responsável pela agenda de tarifas. Esse tipo de estrutura aproxima empresas das decisões estratégicas e facilita acesso a financiamento — algo que o Brasil, até hoje, não conseguiu replicar com a mesma coordenação.

A Serra Verde não é apenas mais uma mina. É um ativo escasso em um mercado dominado pela China. Isso deveria dar ao país capacidade de negociar — exigir etapas industriais locais, atrair investimento em processamento, construir parte da cadeia dentro de casa. Mas isso exige coordenação. Política industrial. Incentivos. E, sobretudo, clareza de estratégia.

Sem isso, o resultado tende a ser o de sempre: o investimento chega, a produção acontece, o minério sai — e o valor é capturado em outro lugar. Ainda assim, a ausência de contrapartidas explícitas não significa necessariamente ausência de negociação. Em setores estratégicos, acordos muitas vezes vão além do que é formalmente divulgado, especialmente quando envolvem interesses geopolíticos mais amplos. O tempo dirá.

Mas o fato imediato é que a USA Rare Earth entendeu o jogo. Está comprando não apenas um ativo, mas uma posição estratégica em uma cadeia que os Estados Unidos querem reconstruir. O Brasil ainda pode decidir qual papel quer ter nela.

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