By Brazil Stock Guide — A XP Inc. (Nasdaq: XP) está virando uma página importante de sua história societária. Documentos enviados à Securities and Exchange Commission (SEC) e compilados pelo Brazil Stock Guide mostram que sócios históricos da companhia deixaram a estrutura de controle em uma reorganização que envolveu dinheiro, ações Classe A e direitos de recompra.
O caso mais visível é o de Gabriel Leal, que anunciou sua saída da XP após quase 21 anos. Poucos dias depois, um veículo ligado a ele apareceu em um prospecto nos Estados Unidos com 4,95 milhões de ações Classe A registradas para eventual venda na Nasdaq. O documento foi arquivado na SEC na terça-feira, dia 7. Pelo preço de referência citado no prospecto, o pacote vale cerca de US$ 80 milhões (cerca de R$ 412 milhões).
A reorganização da XP já era conhecida e começou meses antes. Em fevereiro, a XP Control LLC, veículo que concentra o controle da companhia, fechou um realinhamento com Gabriel Leal, Bernardo Botelho, Bruno Constantino e seus respectivos veículos de investimento. A XP comunicou ao mercado que os três deixaram de ser controladores indiretos da XP Control em 11 de fevereiro de 2026. Eles já tinham deixado a posição executiva antes, mas mantinham ainda assento no board da companhia.
No caso de Bruno Constantino, a XP Control comprou toda sua participação indireta por uma combinação de dinheiro e 1,62 milhão de ações Classe A. O valor em dinheiro não foi divulgado. Apenas a parte em ações equivaleria a cerca de US$ 37 milhões se calculada pelo preço de US$ 22,95 citado no prospecto-base de fevereiro.
Para Gabriel Leal e Bernardo Botelho, a estrutura foi diferente. Parte das participações foi comprada em dinheiro, e o restante virou uma participação sem voto na XP Control, sujeita a um direito de recompra. Esse direito poderia ser exercido com a entrega de até 7,77 milhões de ações Classe A.
No dia 2 de julho, a XP Control exerceu esse direito sobre toda a participação remanescente de Gabriel. Em troca, entregou 4,95 milhões de ações Classe A, resultantes da conversão de ações Classe B antes detidas pela própria XP Control. Com isso, a posição reportada por XP Control e Guilherme Benchimol, fundador da casa e chairman, caiu de 101,75 milhões para 96,8 milhões de ações.
Na sequência, a Big Island Ltd, veículo de Gabriel nas Bahamas, foi registrada como acionista vendedora dessas mesmas 4,95 milhões de ações. O prospecto deixa claro que a XP não está vendendo ações e não receberá nenhum recurso. Se houver venda, o dinheiro ficará com o acionista vendedor.
Esse é um ponto essencial. Os documentos não dizem que Gabriel já vendeu as ações, nem que recebeu US$ 80 milhões em dinheiro. O que eles mostram é que ele deixou a estrutura de controle com um pacote de ações avaliado nessa ordem de grandeza e já registrado para eventual venda no mercado americano.
A conta total é relevante. Gabriel aparece com cerca de US$ 80 milhões em ações registradas para venda. Bruno recebeu 1,62 milhão de ações, além de uma parcela em dinheiro não divulgada. E ainda há um saldo potencial de até 2,82 milhões de ações ligado ao direito de recompra remanescente, equivalente a cerca de US$ 45 milhões pelo preço de referência usado no prospecto de Gabriel.
A novidade é que, somados, os pacotes identificados em ações podem superar US$ 150 milhões, ou cerca de R$ 780 milhões. O valor total da reorganização pode ser maior, porque parte dos acordos envolveu pagamentos em dinheiro que não foram revelados.

A reorganização também reforça o papel de Guilherme Benchimol. Os documentos mostram que o fundador da companhia como figura central da XP Control, que continuava concentrando ações com poder de voto diferenciado. Nas demonstrações financeiras de 2025, a XP dizia que a XP Control detinha 71,3% dos direitos de voto da companhia.
A história vai além da saída de um executivo ou conselheiro. Ela mostra a XP reorganizando sua antiga estrutura de controle, enquanto sócios históricos transformam participações indiretas em dinheiro e ações negociáveis.
A transição geracional ocorre em uma XP altamente lucrativa. Em 2025, a companhia reportou receita e income total de R$ 18,4 bilhões, alta em relação aos R$ 17,0 bilhões de 2024, e lucro líquido de R$ 5,17 bilhões, ante R$ 4,51 bilhões no ano anterior. O resultado reforça que a reorganização societária acontece em um momento de maturidade operacional da plataforma
O movimento de saída também tem peso simbólico. A XP construiu sua narrativa pública como a plataforma que ajudou a democratizar os investimentos no Brasil, ampliando o acesso a fundos, produtos financeiros e assessoria fora da lógica tradicional dos grandes bancos.
Agora, a companhia atravessa uma transição típica de empresas que amadurecem: a geração de sócios que ajudou a construir o negócio começa a monetizar participações relevantes, enquanto o controle segue concentrado em torno de sua estrutura principal.
Para investidores, o ponto de atenção é o potencial excesso de oferta no mercado. As ações registradas não precisam ser vendidas de uma vez – nem precisam ser vendidas. Mas o prospecto abre caminho para que um bloco relevante de ações Classe A possa chegar à Nasdaq ao longo do tempo. A XP, por sua vez, não levanta recursos com essas operações. Trata-se de uma possível monetização por antigos sócios, não de uma captação da companhia.
Procurada pelo Brazil Stock Guide para falar sobre a saída dos sócios históricos e dos valores envolvidos na reorganização, a XP disse que não comentaria.

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