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O preço e o valor da ineficiência

Alemães e japoneses passaram um século ensinando o mundo a produzir mais, melhor e mais rápido. Agora cobram caro para produzir devagar, pouco e com defeito

Por Rodrigo Uchoa, especial para o Brazil Stock Guide

Há algo de delicioso na ironia. Os dois países que transformaram a eficiência em traço de identidade nacional – o Japão do kaizen e da linha de montagem da Toyota; a Alemanha da precisão de tolerância zero – são hoje a vanguarda de um nicho da moda que vende exatamente o oposto: a ineficiência deliberada. Teares que produzem em um dia o que uma máquina moderna faz em uma hora, fios irregulares que a engenharia têxtil passou décadas tentando eliminar, couro que fica meses de molho quando a indústria resolve o assunto em dias… E consumidores dispostos a pagar por cada minuto perdido.

Chame isso de “roupas da ineficiência” ou de artesanato industrial, o fato é que, num mundo em que a Shein desenha, produz e entrega uma calça em duas semanas, um número crescente de pessoas prefere jeans tecidos a oito horas por metro.

A história moderna desse movimento começa em Osaka, cidade portuária japonesa, faladeira e mercantil, onde no fim dos anos 1970 e ao longo dos 80 e 90 cinco marcas, Studio D’Artisan, Evisu, Fullcount, Warehouse e Denime, resolveram recriar o jeans americano dos anos 1940 e 50 que mesmo os EUA tinham abandonado. A Levi’s, por exemplo, já tinha migrado para teares industriais de projétil, rápidos e largos; os japoneses foram atrás dos velhos teares de lançadeira, estreitos e lentos, que tecem o denim com a borda acabada, o selvedge, aquela listrinha branca e vermelha (ou rosa, no caso da Momotaro) que é deixada à vista na barra dobrada, assim, como quem não quer nada. É quase que uma mensagem pública, exibida apenas para os iniciados, como o aperto de mão entre os maçons.

O grupo ficou conhecido como Osaka Five. Não foi uma estratégia pensada por eles, e sim um caminho natural, que tem muito a ver com a sociabilidade da cidade. “Aqui as pessoas não escondem informação”, contou Yoshiyuki Hayashi, fundador da Denime, em depoimento clássico sobre o período. “Para o pessoal de Tóquio, a ideia de dividir informação com concorrentes é incompreensível.” Pois em Osaka, os cinco se reuniam para discutir como fazer o melhor jeans do mundo. E fizeram.

(Image/Momotaro Jeans/reprodução)

O resultado é um produto que se comporta como nenhum outro. O denim de tear de lançadeira sai irregular, com textura tridimensional, e o jeans cru, que chega às lojas rígido como papelão. A calça vai então amolecendo e se moldando ao corpo do dono, desbotando nos pontos de dobra e atrito até virar um mapa da vida de quem o usa. Mikiharu Tsujita, que ajudou a fundar a Evisu antes de criar a Fullcount, definiu sua ambição: queria fazer jeans tão confortáveis que “você não quer tirar até ir para a cama”. No catálogo dos desejáveis, um Iron Heart de 21 onças, um denim pesado como lona de caminhão e que é febre entre motociclistas, sai por cerca de US$ 375. Um Studio D’Artisan de algodão Suvin Gold, fibra indiana rara de toque quase sedoso, fica na casa dos US$ 330. E a Momotaro, de Kojima, já produziu jeans tecidos à mão em teares de quimono, ao ritmo de oito horas por metro de tecido, vendidos por até US$ 2 mil. W. David Marx, autor de Ametora, a bíblia sobre como o Japão salvou o estilo americano, resume: o país passou a ditar o padrão global de tecidos, costura e acabamento. Hoje, marcas do mundo inteiro sonham em parecer japonesas.

A versão alemã da história se passa nos Alpes Suábios, região do sudoeste do país onde os vilarejos parecem aquelas pinturas em que você duvida da perfeição da paisagem e os suábios cultivam a fama de pão-durice. Foi na região que Gitta e Peter Plotnicki rastrearam as antigas máquinas circulares, cerca de 30 delas, boa parte do que resta no mundo. A ideia dos dois era reviver a produção da extinta Merz b. Schwanen (fundada em 1911), depois de terem encontrado uma camiseta Henley da fábrica numa feira de pulgas em Berlim.

Uma malharia moderna tem processos 20 vezes mais rápidos do que as máquinas da Merz, que giram devagar, quase sem tensão, tricotando o algodão em tubo contínuo, sem costuras laterais. A malha sai fofa, densa e ligeiramente irregular, com um caimento que não engancha nem repuxa, e melhora a cada lavagem. A camiseta 215, branca, virou fenômeno mundial quando apareceu colada ao torso do ator Jeremy Allen White na série “The Bear”. Foi quando o mundo descobriu que a camiseta branca perfeita custa a partir de uns €80. Gitta Plotnicki disse à WWD que a camiseta ideal deve “sublinhar sua personalidade, sem se destacar”. É o tipo de frase que só faz sentido num mercado em que a discrição custa quatro vezes o preço de um pacote com três camisetas da H&M.

Mas não é só jeans e camiseta branca. O culto se espalha por todo o guarda-roupa. Há o chambray de tear de lançadeira da Warehouse, o Oxford encorpado da Kamakura Shirts, as flanelas densas da UES e da Iron Heart, os tecidos sashiko quase esculturais da Blue Blue Japan e da Kapital, as meias de máquinas antigas da Rototo e da Anonymous Ism. Fora do vestuário, o couro da inglesa J&FJ Baker, curtido em tanques de casca de carvalho por mais de um ano, envelhece com uma pátina que curtume nenhum replica. Em todos os casos, a lógica é a mesma: aceitar baixa produtividade, irregularidade e custo alto em troca de qualidades táteis que a eficiência mata. Para o engenheiro de pensamento cartesiano, é defeito; para o entusiasta, disposto a pagar mais pela imperfeição, é o reflexo do caráter da roupa.

Convém, claro, manter um pé atrás. Há algo de cômico num consumidor que foge da padronização do fast fashion para aderir a outro uniforme, como o jeans selvedge de barra dobrada, camiseta branca alemã e meia japonesa. O que ele quer é ser reconhecido enquanto anda por qualquer bairro descolado de Londres, Nova York ou São Paulo. Voltamos aqui ao paradoxo a excepcionalidade comprada em escala. Mas talvez o apelo real esteja em outro lugar: num mundo de mercadorias descartáveis e idênticas, essas roupas envelhecem com o dono, ficam melhores com o uso e carregam marcas do tempo. Do tempo daquele que as usa e do tempo das máquinas lentas que as fizeram. Nesse caso, a ineficiência pode ser calculada como o preço da memória.

www.instagram.com/theskepticalhedonist


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