Por Rodrigo Uchoa, especial para o Brazil Stock Guide
Vistos a partir do norte, os vinhedos do Mediterrâneo terminam onde termina a Europa: na Provença, nas encostas da Sicília, na Espanha, nas ilhas gregas. Mas na margem sul do mesmo mar, o arco que vai do Atlas marroquino às montanhas costeiras da Síria, cultiva-se a vinha há mais tempo do que em qualquer denominação francesa. Foram os fenícios, partindo do atual Líbano, que levaram a videira a Cartago, onde é hoje a Tunísia, e à Península Ibérica. Atualmente, esse outro lado do Mediterrâneo produz vinho sob condições que nenhum produtor europeu reconheceria como normais: políticas fiscais e sociais punitivas, guerras recorrentes, mercados domésticos onde a maioria da população não bebe. Ainda assim, produz. E, em alguns casos, procura produzir cada vez melhor.
O jornal “Valor Econômico” registrava, em 2013, as primeiras surpresas com esses rótulos de países islâmicos (um artigo meu, depois de uma viagem à região: https://valor.globo.com/eu-e/coluna/pequenas-surpresas-com-rotulos-islamicos.ghtml, infelizmente disponível apenas para assinantes). Pois a graça de ver duas seleções de futebol se enfrentando na Copa do Mundo, uma delas, a velha fronteira vinícola no Mediterrâneo, a França, contra a nova fronteira, do outro lado do Mare Nostrum, o Marrocos, aguçou a curiosidade de fazer, 13 anos depois, um balanço do que aconteceu às margens mediterrâneas. Ao fim, pode até mesmo parecer um estudo sobre como geografia e geopolítica moldam uma indústria.

O Atlas como fronteira climática
O caso mais bem-sucedido é o Marrocos. O país produz entre 30 e 40 milhões de garrafas por ano e ultrapassou a Argélia como segunda potência vitivinícola da África, atrás apenas da África do Sul. A geografia explica: cerca de 60% da produção concentra-se no planalto de Meknès, na planície do Saïss, entre 500 e 800 metros de altitude, protegida pelo maciço do Zerhoun e refrescada, a oeste, pela influência atlântica. Foi ali que os colonos franceses do protetorado (1912-1956) plantaram as castas do vale do Rhône: carignan, cinsault, syrah, grenache. Pois é ali também que um único grupo, os Celliers de Meknès, fundado por Brahim Zniber, controla 85% do mercado, com o Château Roslane como vitrine.
A monarquia marroquina mantém um pacto pragmático: a lei proíbe a venda de álcool a muçulmanos, mas o Estado arrecada bilhões de dirrãs em impostos sobre a bebida e o turismo. A ameaça, no Marrocos, não vem da política, e sim do céu: anos seguidos de seca empurram produtores como a Villa Volubilia para vinhedos cada vez mais altos. A aposta regional nos “gris”, rosés pálidos de cinsault, casou bem com o gosto global da década e virou trunfo de exportação. Um brasileiro conhecedor desdenhou do vinho, “não serve nem para ponche”, mas os americanos têm achado graça nele, sustentando o consumo.
O contraste com a Argélia é eloquente. Nos anos 1930, os departamentos de Orã, Mascara e Tlemcen faziam da colônia francesa o maior exportador de vinho do mundo. A independência, em 1962, levou embora os colonos e os compradores; a estatização fez o resto. O país, que já teve 350 mil hectares de vinha, hoje mal figura nas estatísticas da OIV. A Tunísia, com seus moscatéis do cabo Bon, sobrevive modestamente ancorada no turismo costeiro; o Egito, com vinhedos irrigados no delta do Nilo, abastece sobretudo a curiosidade dos turistas nos resorts do mar Vermelho.

Anatólia: potencial geológico, teto político
Nenhum país da região tem mais a perder, ou a ganhar, do que a Turquia. O território da Anatólia é um dos berços da domesticação da videira e guarda um patrimônio de centenas de castas nativas, do öküzgözü de Elazığ, no leste, ao kalecik karası dos arredores de Ancara, passando por vinhas plantadas a 1.700 metros nas margens do lago Van. A diversidade de terroirs é interessante, indo da Trácia aos planaltos centrais e às encostas vulcânicas da Capadócia. Essa diversidade sustenta hoje entre 140 e 200 vinícolas licenciadas, que acumulam mais de mil medalhas internacionais.
O teto, porém, é político. O governo do AKP, no poder desde 2002, transformou o vinho em alvo preferencial de uma agenda de moralização: publicidade proibida desde 2013, venda on-line banida, impostos especiais reajustados acima da inflação e, desde 2023, exigência de garantias financeiras que sufocam os pequenos produtores, justamente o segmento que lidera a renovação qualitativa. O consumo per capita permanece abaixo de um litro anual. Até mesmo mostrar uma garrafa nas redes sociais é uma infração na Turquia. O resultado é uma indústria que amadureceu para exportar, mas cujo próprio Estado funciona como barreira não-tarifária.

Uma vinícola visitada em 2013, a Gali, que tem vinhedos na península de Galípoli, apostou em cortes bordaleses. À época, não surpreendeu em uma degustação, mas era uma promessa. Infelizmente as últimas notícias na imprensa especializada dão conta de que a qualidade dos vinhos turcos não evoluiu muito.
Levante: viticultura em zona de guerra
Se o Magreb ilustra o peso do clima e a Anatólia o peso do Estado, o Levante mostra o vinho reduzido à sua expressão mais dura: sobreviver. O vale do Bekaa, encaixado a 1.000 metros entre as montanhas, atravessou a guerra civil de 1975-1990 sem interromper colheitas, façanha que deu fama mundial ao Château Musar, hoje dirigido pela terceira geração da família Hochar. Entre 2023 e 2024, a história rimou: os bombardeios israelenses contra as posições do Hezbollah atingiram em cheio a planície, danificando adegas e vinhedos. Ainda assim, o setor engarrafou 15 milhões de garrafas em 2024, e as exportações já se recuperam.
Mais ao norte, a Síria oferece o caso-limite. O Domaine de Bargylus, dos irmãos Saadé, ocupa as encostas do Jabal al-Ansariyah, o maciço costeiro de Latakia que os gregos chamavam justamente de monte Bargylus. Durante 14 anos de guerra, a propriedade foi administrada por telefone, de Beirute; amostras de uva viajavam de táxi para definir a data da colheita, e as 45 mil garrafas anuais saíam do país por rotas improváveis. A queda de Bashar al-Assad, em dezembro de 2024, abriu pela primeira vez a perspectiva de uma logística normal para aquele vinho que críticos como Jancis Robinson apontam entre os melhores do Mediterrâneo oriental.
Em uma coluna próxima, valerá focar na produção das colinas de Golã, território anexado por Israel. É um lugar que tem produção vinícola consolidada e de primeira linha, quando se fala de brancos.
A terceira margem do Mediterrâneo

Para o consumidor brasileiro, esses vinhos não precisam ser uma abstração. O Musar chega pela Mistral, com o tinto principal na casa dos R$ 860, mais de quatro vezes o preço de 2013, uma inflação que reflete tanto a escassez quanto o prestígio. O Marrocos aparece pela World Wine com o Tandem, syrah do Atlas assinado em parceria por Alain Graillot, referência de Crozes-Hermitage. A Turquia, sem importador relevante, segue dependendo da mala do viajante, mas como já dissemos, talvez não valha o excesso de bagagem.
Para o mundo moderno, o Mediterrâneo do vinho sempre foi contado a partir da margem norte. A viticultura no sul, mais antiga, nunca deixou de existir, e, agora, além da resiliência geopolítica, terá de mostrar que vai se adaptar a mudanças climáticas, de gosto e de comportamento.

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