Rogério Freitas, chefe de investimentos do ASA, a instituição financeira fundada pelo banqueiro Alberto Safra, afirmou semana passada que o Ibovespa pode chegar aos 300 mil pontos caso o Brasil eleja um candidato “fiscalmente responsável”.
A frase é perfeita para produzir manchetes e quase inútil para orientar decisões de investimento. O número impressiona, a condição soa virtuosa e, publicamente, o cálculo permanece invisível.
Freitas apresenta uma cadeia econômica plausível. Uma política fiscal considerada responsável ajudaria a ancorar as expectativas de inflação, reduzir a taxa de juro neutra e atrair investimentos. Tudo isso poderia valorizar os ativos brasileiros. Mas entre uma melhora fiscal e uma alta de mais de 100 mil pontos existe uma distância que precisa ser preenchida por lucros, múltiplos e probabilidades. O mecanismo foi mencionado. A magnitude continua sem demonstração.
É o mesmo tipo de previsão que reaparece, com o sinal invertido, quando alguém anuncia que o dólar poderia ter chegado a R$ 7. Em momentos de tensão, transforma-se um cenário extremo em manchete e retira-se da discussão qualquer noção de probabilidade. Se a cotação se aproximar do alvo, o autor será lembrado como visionário. Se não chegar, quase ninguém voltará para cobrar as premissas. O dólar a R$ 7 e o Ibovespa aos 300 mil pontos pertencem ao mesmo gênero de retórica financeira de manchete: cenários extremos, de forte apelo eleitoral e metodologicamente difíceis de auditar.
A estrutura retórica é eficiente. Primeiro, escolhe-se um número capaz de circular. Depois, associa-se esse número à escolha política considerada correta. Por fim, preservam-se condições suficientes para que a projeção nunca possa ser definitivamente desmentida. Se a bolsa subir, o gestor acertou. Se não subir, o ajuste não foi convincente, o Executivo falhou, o Congresso não colaborou, o exterior piorou ou o candidato eleito não era fiscalmente responsável o bastante.
A própria alocação do ASA ajuda a colocar o alvo em perspectiva. A casa diz ter mantido algum risco na carteira depois do bom desempenho do primeiro semestre. Ao mesmo tempo, declarou estar neutra em bolsa brasileira e acima do neutro em pós-fixados e NTN-Bs. Isso não contradiz formalmente a possibilidade dos 300 mil pontos. Mostra, porém, que esse cenário não parece ser a principal convicção em torno da qual a instituição organizou sua carteira.
A tese efetivamente refletida na alocação é bem mais cautelosa. O ASA vê valor nos juros reais elevados, busca proteção contra a inflação e considera que uma exposição mais relevante ao Brasil depende de avanços fiscais. Essa é uma visão de investimento coerente. Na comunicação pública, os 300 mil pontos acabam funcionando como embalagem promocional de uma estratégia muito mais cautelosa e condicionada.
Há ainda uma tensão conceitual que enfraquece a simplificação. O próprio Freitas afirma que, caso a atual política fiscal continue, o Ibovespa pode oferecer proteção por meio de bancos e empresas de commodities. Num cenário de maior disciplina fiscal, a vantagem estaria com os gestores ativos. Portanto, nem a análise do próprio ASA sustenta uma divisão mecânica entre o candidato fiscalmente correto e uma bolsa em disparada. Diferentes cenários podem favorecer diferentes empresas, setores e estratégias sem produzir uma relação automática entre eleição e nível do índice.
O contraste fica ainda mais evidente quando a instituição fala dos Estados Unidos. Para projetar uma valorização de 8% a 10% nas ações americanas, o ASA menciona a entrega de resultados pelas empresas e a manutenção do múltiplo preço-lucro. Para o mercado americano, aparecem lucros, múltiplos e uma faixa de retorno. Para o Brasil, aparecem “responsabilidade fiscal” e 300 mil pontos. O método de análise existe – a própria instituição o utiliza ao falar dos Estados Unidos. Ele apenas não apareceu na justificativa pública para a previsão que produziu a manchete mais chamativa.
Existe também uma questão de responsabilidade profissional. Um gestor de recursos não fala no espaço público como um comentarista desobrigado de demonstrar suas premissas. Ele administra dinheiro de terceiros e fala amparado pela credibilidade de uma instituição financeira. Não se trata de afirmar que houve infração regulatória, mas de cobrar o padrão de transparência compatível com a autoridade do cargo.
O mercado tem todo o direito de defender disciplina fiscal, redução do gasto ou uma mudança na condução da política econômica. O problema começa quando uma preferência política é apresentada como se fosse valuation. O Ibovespa pode chegar aos 300 mil pontos, assim como o dólar pode chegar a R$ 7.
Possibilidades, porém, não são análises. Quando desaparecem a probabilidade, a planilha e a prestação de contas, sobra apenas um número extremo que funciona mais como argumento opinativo do que como análise verificável. Isso pode ser eficaz como marketing. Como orientação de investimento, vale muito pouco.
O ASA foi procurado na semana passada e recebeu perguntas sobre as premissas de lucros, múltiplos, juros, câmbio, prazo e probabilidade que sustentam a projeção. A assessoria informou que encaminharia os questionamentos a Rogério Freitas. Após uma nova solicitação de resposta dois dias depois e o encerramento do prazo informado, não houve retorno até a publicação.

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