O Brasil foi eliminado da Copa do Mundo de forma precoce por várias razões. Houve erros de campo da seleção, escolhas discutíveis do técnico Carlo Ancelotti, uma atuação decisiva do craque Haaland e uma Noruega organizada, eficiente o bastante para transformar poucas chances em vantagem. Mas o vexame nas oitavas não começou no apito inicial. Ele fechou uma conta aberta desde o fim do último ciclo. O hexa veio, mas só no número de Copas perdidas desde 2002.
Por que o Brasil não aprendeu a lição no último ciclo? Depois da saída de Tite, a seleção seguiu uma sequência de soluções provisórias. Vieram interinos, experiências, apostas de transição e mudanças de comando. Ramon Menezes, Fernando Diniz, Dorival Júnior e Ancelotti ocuparam, cada um a seu modo, um cargo que deveria expressar continuidade, mas acabou revelando instabilidade.
A CBF atravessou o período em crise recorrente, entre disputas de poder e trocas de dirigentes. A seleção teve mais donos do que um projeto de longo prazo. O time que já foi a expressão mais sofisticada do talento brasileiro passou a ser também um retrato de sua governança: pouco capital institucional para organizar o talento do jogador brasileiro.
Esse é o ponto central. O Brasil não perdeu porque deixou de produzir jogadores. Talvez não produza mais Pelés, mas ainda assim produz um bom número de atletas que jogam nas principais ligas internacionais. Mas o fato é que o Brasil perdeu porque continua tratando talento como substituto da construção de um projeto coletivo de longo prazo.
Durante décadas, essa aposta funcionou. A seleção viveu de uma vantagem comparativa quase natural. O país produzia jogadores talentosíssimos em safras excepcionais. Todo brasileiro sabe de cor quem foram os expoentes de 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002. Foi isso que construiu a lenda da amarelinha.
Mas o futebol global mudou. Jogo tático coletivo, preparação física, treinamento de fundamentos e jogadas, análise de dados, gestão de elenco e disciplina encurtaram distâncias. Países menores podem não ter a mitologia da camisa brasileira, mas já conseguem produzir times mais consistentes.
A Noruega ofereceu o contraste. Não venceu por jogar como o Brasil. Venceu por não precisar jogar como o Brasil. Tinha um plano, entendeu suas limitações e maximizou sua principal virtude. Haaland tocou pouco na bola, mas fez o que se espera de um craque dentro de um sistema eficiente: decidiu quando foi acionado.
No Brasil, o craque continua sendo muitas vezes chamado para compensar a ausência de um projeto coordenado. Durante anos, esse papel pertenceu a Neymar. Seu talento é indiscutível. Mas os últimos anos já haviam mostrado que Neymar não conseguia mais oferecer, com regularidade, condição física e protagonismo compatíveis com a centralidade emocional e técnica que o Brasil insistia em lhe reservar. Trazê-lo de volta como eixo simbólico foi um erro. A responsabilidade é dele, pelo que não entregou.
Mas é também da CBF, que preservou a cultura do nome acima do projeto, e de Ancelotti, que aceitou operar dentro dela. Ancelotti foi contratado para romper essa lógica. Ou deveria ter sido. O técnico italiano representava, em tese, a importação de método europeu: autoridade, hierarquia, experiência e distância das pressões locais. Mas chegou tarde, quando boa parte do ciclo já havia sido consumida, e teve pouco mais de um ano para organizar uma seleção administrada por urgências. Essa é sua atenuante. Não sua absolvição. Não rompeu com isso nesta primeira prova.
Esse paradoxo vai além do futebol. O Brasil conhece bem a lógica da promessa não convertida. Tem recursos naturais, mercado consumidor, empresas sofisticadas, empreendedores criativos, diplomacia reconhecida, cultura influente e capacidade rara de reinvenção. Mas desperdiça ciclos favoráveis por falta de coordenação, continuidade, educação básica consistente e execução de longo prazo.
Nenhum país tem direito adquirido à grandeza. Nem no futebol, nem na economia, nem na política. Vantagens precisam ser renovadas. Marcas precisam ser geridas. Talento precisa ser treinado, protegido, coordenado e colocado a serviço de uma ideia comum. Essa é a lição que dói. Ancelotti fica para 2030. Isso dá à CBF a chance de provar que sua aposta é séria. Mas o próximo ciclo só fará sentido se partir de uma premissa simples: é preciso criar condições para que ele organize, escolha, contrarie interesses e construa continuidade. Improviso pode ser virtude quando complementa um projeto. Quando o substitui, vira um vício, daqueles difíceis de largar.

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