# Bradesco vê pouco atrativo no Desenrola 3.0 e alerta para piora da inadimplência em 2027

*CEO Marcelo Noronha evita comentar propostas dos candidatos e afirma que programa de compra de dívidas não é prioridade para o banco.*

- Published: 2026-10-23
- Section: Insights
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*Marcelo Noronha, CEO, presidente do Bradesco. Foto: Wanezza Soares/Divulgação*

**Brazil Stock Guide —** O Bradesco não vê, até o momento, atratividade suficiente para participar de forma relevante do Desenrola Brasil 3.0, programa do governo federal que prevê a compra de carteiras de dívidas inadimplentes com descontos de pelo menos 90%. A avaliação foi feita nesta sexta-feira (23) pelo presidente do banco, Marcelo Noronha, durante teleconferência sobre os resultados do terceiro trimestre de 2026, marcada também pela cautela do executivo diante de perguntas sobre a eleição presidencial, cujo segundo turno será realizado no domingo (25).

“A gente sempre olha para todos os programas, o pessoal está analisando aqui, mas até agora a equipe não viu mérito para ter um engajamento alto nisso aqui”, afirmou Noronha, ao responder a uma pergunta sobre o leilão de dívidas preparado pelo Ministério da Fazenda.

Segundo o executivo, o programa não está entre as prioridades do Bradesco. Ele observou que existem alternativas de mercado para lidar com carteiras inadimplentes e acrescentou que o banco sequer tem realizado vendas relevantes desse tipo de ativo recentemente. A declaração não representa uma decisão definitiva de ficar fora do Desenrola, mas sinaliza pouco entusiasmo com as condições oferecidas pelo governo.

A manifestação ocorre um dia depois de o Ministério da Fazenda publicar o edital de chamamento de instituições financeiras interessadas em vender dívidas à União. Os credores têm até 30 de outubro para apresentar suas carteiras. O governo estima receber ofertas de até R$ 90 bilhões em créditos inadimplentes, que poderão ser adquiridos com descontos mínimos de 90%.

O Desenrola 3.0 foi criado em setembro por medida provisória do governo Lula e busca permitir que consumidores renegociem dívidas antigas após sua aquisição pela União. O leilão está previsto para novembro, com possibilidade de adiamento para dezembro. O volume efetivamente adquirido dependerá da adesão dos credores e das condições apresentadas.

#### Cautela diante das eleições

A dois dias da votação que decidirá a disputa presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), Noronha evitou manifestar preferência política ou avaliar propostas dos candidatos.

Questionado especificamente sobre a promessa de Flávio Bolsonaro de congelar dívidas de pessoas físicas por seis meses e de empresas por um ano, o presidente do Bradesco preferiu não entrar no mérito da proposta. “Eu prefiro não comentar aspectos de campanha eleitoral, até para a gente estar aqui, depois de alguém dizendo que estou fazendo campanha para A ou para B”, afirmou.

Em outra pergunta, sobre a possibilidade de uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro provocar uma redução das taxas de juros e melhorar as perspectivas econômicas, Noronha voltou a evitar considerações eleitorais.

Segundo ele, a estratégia do Bradesco está definida e será mantida independentemente do cenário político. O banco poderá ajustar suas decisões operacionais às condições macroeconômicas, mas não pretende alterar sua orientação estratégica em função do resultado da eleição.

#### Inadimplência deve continuar pressionada

Apesar da cautela nas questões políticas, Noronha foi mais explícito sobre as dificuldades econômicas que o banco espera enfrentar em 2027. Segundo o executivo, o elevado comprometimento da renda das famílias e a desaceleração da economia devem manter pressão sobre a inadimplência e o custo do crédito no próximo ano.

O presidente do Bradesco citou projeções de crescimento do PIB próximas de 1% para 2027 e afirmou que ainda não identifica sinais claros de uma recuperação capaz de aliviar rapidamente a situação financeira das famílias. Para enfrentar esse ambiente, o banco continuará privilegiando linhas com garantias, como crédito consignado, financiamento imobiliário e operações respaldadas por fundos garantidores.

A estratégia também envolve reduzir a exposição a modalidades consideradas mais arriscadas, especialmente crédito pessoal sem garantia e crédito rotativo do cartão. O Bradesco informou que sua carteira de crédito cresceu 11,1% em 12 meses, com expansão mais concentrada em empresas do que em pessoas físicas.

Noronha ressaltou que o banco não pretende abandonar sua trajetória de crescimento, mas reconheceu que as condições macroeconômicas exigem cautela. O Bradesco encerrou o terceiro trimestre com lucro recorrente de R$ 7,1 bilhões, alta de 14,6% em relação ao mesmo período de 2025, e retorno sobre o patrimônio líquido de 16,1%.

Ao longo da teleconferência, Noronha repetiu que o Bradesco não está imune às dificuldades da economia brasileira, independentemente do resultado das eleições. “Bradesco é Brasil, a gente está aqui trabalhando. Se a economia desacelera, a gente tem que lidar com isso e continuar ganhando dinheiro”, afirmou.

Segundo o executivo, o banco seguirá sua estratégia de crescimento e controle de riscos, adaptando-se às condições macroeconômicas. “A gente obviamente não está fora do mercado brasileiro, a gente está aqui dentro”, reforçou.

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