# Por que a inflação médica brasileira vai na contramão do mundo?

*O Brasil precisa discutir não apenas quanto gasta com saúde, mas o que recebe em troca.*

- Published: 2026-11-04
- Author: André Vieira
- Section: Behind the Lines
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A inflação médica está desacelerando em boa parte do mundo, mas não no Brasil. Segundo o relatório *Global Medical Trend Rates 2027*, da consultoria Aon, os custos dos planos de saúde corporativos brasileiros devem crescer 11,1% no próximo ano, ante 9,7% em 2026. A tendência é inversa à global, cuja projeção recuou de 9,8% para 9%. Na Europa, a estimativa caiu de 8,2% para 7,5%, enquanto na Ásia-Pacífico passou de 11,3% para 9,7%. No Brasil, a inflação médica projetada supera em mais de três vezes a inflação geral estimada de 3,4%. Os percentuais representam expectativas de crescimento dos custos assistenciais, não necessariamente os reajustes que serão aplicados aos contratos dos planos de saúde.

A explicação vai além do envelhecimento da população. O relatório identifica doenças cardiovasculares, câncer e enfermidades crônicas entre os principais fatores de pressão sobre os custos. No Brasil, a utilização de consultas e atendimentos simples permaneceu relativamente estável, enquanto aumentou a demanda por internações e tratamentos complexos. A incorporação de medicamentos inovadores amplia as possibilidades terapêuticas, mas também exige mais recursos. Existe, porém, uma questão econômica pouco discutida: quanto desse aumento representa avanços efetivos na qualidade da assistência e quanto decorre de preços, desperdícios e ineficiências? Uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU), divulgada em maio, constatou que o setor ainda remunera predominantemente o volume de procedimentos, e não os resultados clínicos obtidos.

Os números das operadoras tornam essa discussão mais interessante. Segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), uma amostra de 214 empresas, responsável por 43,9 milhões de beneficiários, registrou R$ 126,4 bilhões em despesas assistenciais no primeiro semestre de 2026, com sinistralidade de 82,2%, ante 81,3% um ano antes. Apesar da pressão sobre os custos, essas operadoras apresentaram lucro conjunto de R$ 8,5 bilhões, equivalente a 4,9% das receitas totais. A judicialização também pressiona os custos, embora parte das disputas envolva coberturas contratuais, e o TCU ressalte que seu impacto sobre os reajustes ainda não foi quantificado de maneira conclusiva. Os dados não demonstram que os aumentos projetados sejam injustificados, mas reforçam a necessidade de distinguir custos médicos, preços cobrados pelas operadoras e margens de lucro — três indicadores frequentemente tratados como se fossem a mesma coisa.

O desafio é especialmente relevante para os planos coletivos empresariais, cujos reajustes não estão sujeitos ao teto anual estabelecido pela ANS para contratos individuais. Para as empresas, a assistência médica representa uma parcela crescente dos custos de pessoal; para os trabalhadores, aumentos persistentes podem significar maior coparticipação, redução de benefícios ou dificuldade de manter a cobertura. Num cenário de inflação geral relativamente controlada, a saúde privada corre o risco de se tornar progressivamente menos acessível. O Brasil precisa entender por que seus custos médicos continuam acelerando quando os de outras regiões desaceleram. Afinal, gastar mais com saúde pode ser uma boa notícia quando significa tratamentos melhores e vidas mais longas. Quando significa apenas pagar cada vez mais pelos mesmos resultados, é um problema de produtividade que empresas, operadoras e reguladores não podem ignorar.

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Source: Brazil Stock Guide, https://brazilstockguide.com/br/behind-the-lines-br/por-que-a-inflacao-medica-brasileira-vai-na-contramao-do-mundo/
