# O Galípolo do Velho Testamento

*Em 2021, Galípolo questionava os fundamentos da política monetária ao lado de André Lara Resende. Hoje, à frente do Banco Central, segue o mesmo modelo. O que mudou?*

- Published: 2026-11-03
- Author: André Vieira
- Section: Behind the Lines
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Em junho de 2021, Gabriel Galípolo participou de uma conversa com o economista André Lara Resende, conduzida pelo [jornalista Luís Nassif](https://youtu.be/_ABp4pDoOpk?si=N2TWXh_Iu3jMSlh_). Ainda distante da presidência do Banco Central, Galípolo não escondia sua admiração pelas ideias do economista, um dos criadores do Plano Real. Disse que precisava conversar mais com ele e elogiou sua contribuição para desmistificar a economia e atualizar conceitos que já não encontravam correspondência na realidade.

Lara Resende questionava a existência de uma taxa natural de juros, a relação tradicional entre poupança e investimento e a eficácia da política monetária convencional. Galípolo acompanhava o raciocínio com entusiasmo, acrescentando argumentos próprios e referências filosóficas. Era o Galípolo do Velho Testamento. A afinidade intelectual não era circunstancial. Em 2017, Galípolo e Luiz Gonzaga Belluzzo haviam publicado um artigo no *Valor Econômico* questionando os efeitos dos juros elevados sobre a dívida pública e a própria inflação.

Na conversa de 2021, Galípolo voltou ao tema, destacando como a redução do custo de financiamento do Tesouro poderia melhorar a trajetória da dívida mesmo diante de déficits primários expressivos. Também defendeu instrumentos alternativos de administração da liquidez e a necessidade de compreender a moeda e o crédito para além das explicações tradicionais. Não se tratava de um economista simplesmente interessado em ouvir uma interpretação heterodoxa. Galípolo participava ativamente da construção daquele argumento.

Cinco anos depois, o cenário é bastante diferente. Como presidente do Banco Central, Galípolo conduz a política monetária dentro do regime de metas de inflação e defende a manutenção de juros restritivos enquanto persistirem pressões sobre os preços. Em setembro, o Copom reduziu a Selic para 13,75% ao ano, mas reafirmou a necessidade de cautela diante das expectativas inflacionárias desancoradas.

O presidente do BC passou a explicar os juros elevados pela necessidade de reequilibrar oferta e demanda, justamente um dos mecanismos tradicionais de transmissão da política monetária que Lara Resende questiona. A mudança de posição institucional do titular do BC é evidente, embora isso não prove que suas convicções intelectuais tenham desaparecido.

Há diferenças importantes entre os dois momentos. Em 2021, a economia ainda sofria os efeitos da pandemia, com desemprego elevado e capacidade ociosa. Em 2026, o mercado de trabalho permanece aquecido, a inflação resiste à convergência para a meta e o Banco Central precisa administrar expectativas que não controla inteiramente.

Galípolo também reconhece as limitações da política que executa. Em audiência no Senado em maio, observou que a elevada participação de títulos públicos indexados à Selic faz com que aumentos dos juros ampliem a renda de seus detentores, criando uma dificuldade adicional para a transmissão da política monetária. O diagnóstico do passado, portanto, não foi inteiramente abandonado. O que mudou, sobretudo, foi a disposição de extrair consequências práticas dele. Nesta quarta, dia 4, o Copom decidirá o rumo dos juros básicos no Brasil.

É nesse contexto que Lara Resende reaparece com uma proposta ainda mais ousada: reduzir a Selic a 7,5% em 12 meses, estabelecer posteriormente uma banda estrutural de juros entre 3% e 5,5% e criar um conselho para coordenar as políticas fiscal e monetária. Galípolo participou, em 2022, de um grupo do CEBRI que já defendia maior coordenação entre essas políticas, embora não haja evidência de que tenha endossado integralmente o novo plano.

A divergência até agora é concreta. Enquanto Lara Resende considera os juros elevados o principal motor do desequilíbrio fiscal, o Banco Central continua tratando a restrição monetária como necessária à estabilidade dos preços. São interpretações diferentes de um problema que ambos conhecem profundamente.

Seria simplista acusar Galípolo de incoerência. Pensar a política econômica fora do governo como toda a liberdade acadêmica é bem diferente de conduzi-la sob responsabilidades legais, institucionais e políticas. Mas também seria um desperdício intelectual aceitar que a passagem para o poder encerra automaticamente os questionamentos feitos antes dele. O Galípolo de 2021 parecia convencido de que a economia precisava rever seus dogmas. O de 2026 administra esses mesmos conceitos com prudência, disciplina e uma dose de conservadorismo.

Mas será que não existe mesmo uma contradição entre as duas atitudes? Vale a pergunta: o Galípolo do Velho Testamento ainda acredita na necessidade de reformar a política monetária brasileira ou descobriu, ao assumir o Banco Central, que é mais seguro preservar a doutrina sagrada do mercado financeiro do que tentar reescrevê-la?

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Source: Brazil Stock Guide, https://brazilstockguide.com/br/behind-the-lines-br/o-galipolo-do-velho-testamento/
